Marcello José Abbud elucida que o agronegócio brasileiro, responsável por parcela expressiva do PIB nacional e por volumes crescentes de exportações, ainda trata a gestão de resíduos como uma questão secundária em sua cadeia produtiva. Essa percepção, segundo o empresário, está mudando, mas em ritmo insuficiente diante da pressão regulatória, das exigências de mercados compradores internacionais e dos riscos ambientais que o acúmulo de resíduos não tratados representa para o solo, a água e o ar nas regiões produtoras.
O Brasil é o maior produtor e exportador de diversas commodities agrícolas, entre elas soja, cana-de-açúcar, café, laranja e carnes. Cada uma dessas cadeias gera resíduos em volumes expressivos: bagaço, vinhaça, cascas, carcaças, embalagens de agroquímicos, camas de aviário, esterco e uma série de outros materiais que, se mal gerenciados, tornam-se passivo ambiental e risco sanitário. Quando bem gerenciados, esses mesmos materiais se transformam em insumos, energia ou matéria-prima para outros processos produtivos.
A distância entre o problema e a solução, no caso do agronegócio brasileiro, é menor do que parece. Continue lendo para entender quais são os principais fluxos de resíduos do campo, como a regulação está pressionando por mudanças e quais soluções ambientais têm demonstrado viabilidade técnica e econômica em diferentes contextos produtivos.
Quais são os principais resíduos gerados pelo agronegócio e por que eles exigem atenção?
A diversidade do agronegócio brasileiro se reflete diretamente na diversidade de seus resíduos. Na pecuária, os dejetos de suínos e aves concentram nitrogênio e fósforo em níveis que, quando lançados sem tratamento em corpos hídricos, causam eutrofização e comprometem o abastecimento de água de municípios inteiros. Como constata Marcello José Abbud, algumas das piores situações de contaminação hídrica em estados produtores do Sul e do Centro-Oeste do Brasil têm origem direta no manejo inadequado de dejetos animais em propriedades rurais de pequeno e médio porte.
Na agricultura, as embalagens de agrotóxicos representam um fluxo de resíduo com regulação específica no Brasil, por meio da Lei 7.802/1989 e do sistema de logística reversa gerido pelo inpEV. Ainda assim, o índice de embalagens que não retornam ao sistema formal de destinação permanece elevado em algumas regiões, especialmente onde a fiscalização é menos intensa.

Como a regulação ambiental está redefinindo as obrigações do setor rural?
De acordo com Marcello José Abbud, o avanço da regulação ambiental aplicada ao agronegócio no Brasil é um processo gradual, mas com aceleração perceptível nos últimos anos. O Código Florestal, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e as resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) estabelecem obrigações que afetam diretamente a forma como propriedades rurais e agroindústrias devem gerenciar seus resíduos.
Mercados externos têm atuado como reguladores informais com eficácia crescente. Protocolos de sustentabilidade exigidos por compradores europeus e norte-americanos, como os vinculados à rastreabilidade da soja e ao desmatamento zero, começam a incluir critérios sobre gestão de resíduos e emissões nas propriedades fornecedoras.
Soluções ambientais que já funcionam no campo: da biodigestão ao coprocessamento
A biodigestão anaeróbia de dejetos animais é uma das soluções ambientais com maior histórico de aplicação no agronegócio brasileiro. Propriedades suinícolas e avícolas de médio e grande porte têm implantado biodigestores que transformam dejetos em biogás, utilizado para geração de energia elétrica ou térmica, e em biofertilizante, que retorna ao solo, reduzindo a necessidade de insumos químicos. Como destaca Marcello José Abbud, o modelo não é novo, mas sua adoção ainda é restrita a produtores com escala suficiente para justificar o investimento inicial, o que exclui uma parcela significativa da agricultura familiar.
O coprocessamento de resíduos agroindustriais em fornos de cimenteiras é outra solução ambiental consolidada no Brasil. Materiais com poder calorífico, como cascas, bagaços e resíduos de processamento, substituem parte do combustível fóssil utilizado no processo de produção de cimento, gerando redução de emissões e eliminando a necessidade de disposição final.
O agronegócio sustentável não é uma abstração: é uma necessidade competitiva
Como sintetiza Marcello José Abbud, a gestão adequada de resíduos no agronegócio brasileiro deixou de ser uma pauta exclusivamente ambiental para se tornar uma variável competitiva com impacto direto na lucratividade e no acesso a mercados. Produtores, cooperativas e agroindústrias que ainda tratam o tema como custo sem retorno estão operando com uma visão que o mercado global já superou.
O campo brasileiro tem resíduos em quantidade e diversidade suficientes para alimentar cadeias inteiras de valorização, desde que haja tecnologia adequada, regulação clara e vontade de encarar o problema com a seriedade que ele exige. A solução ambiental para o agronegócio não está no futuro: está disponível, testado e economicamente viável para quem decidir adotá-lo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



