Tecnologia

Como a inteligência artificial já decide contratações e escalações no futebol brasileiro

Clubes da Série A usam algoritmos para prevenir lesões e encontrar talentos

Enquanto boa parte da conversa sobre tecnologia no futebol brasileiro se concentra na arbitragem, outra transformação silenciosa vem acontecendo nos departamentos de análise dos clubes. Mais da metade das equipes da Série A do Campeonato Brasileiro já mantém núcleos dedicados a inteligência artificial e ciência de dados, usados para tomar decisões que vão da prevenção de lesões à contratação de jogadores.

Do caderno do olheiro ao algoritmo

Até poucos anos atrás, o processo de observação de talentos dependia quase exclusivamente da experiência de olheiros que viajavam pelo país assistindo a partidas ao vivo. Hoje, softwares de inteligência artificial cruzam milhares de métricas de partidas de ligas do mundo inteiro para identificar jogadores com perfil técnico específico, ampliando em escala aquilo que antes dependia só do olho humano treinado.

Equipes tradicionais da Série A, como Palmeiras, Flamengo e Athletico Paranaense, já mantêm núcleos internos onde algoritmos cruzam relatórios de fadiga muscular, coletados por exames de sangue e sensores de GPS usados nos treinos, com o histórico de carga de jogos de cada atleta. O objetivo é indicar com precisão quais jogadores devem ser poupados de viagens longas ou de sequências de partidas, reduzindo o risco de lesões musculares ao longo da temporada.

Peneiras digitais ganham espaço nas categorias de base

A transformação também chegou às divisões de base. Equipes de garotos em formação já treinam sob observação de aplicativos de inteligência artificial capazes de avaliar velocidade, controle e domínio de bola a partir de vídeos gravados em campo, sem depender exclusivamente da presença de um olheiro veterano. Clubes como o Santos já testaram esse tipo de ferramenta em atividades de base, parte de um movimento mais amplo que promete ampliar o alcance da observação de talentos em um país do tamanho do Brasil.

Uma das principais vantagens apontadas por especialistas do setor é a capacidade de analisar milhares de atletas simultaneamente, algo impossível para peneiras tradicionais, que dependem da presença física de olheiros em cada evento. Processos que antes levavam meses de observação podem ser reduzidos a semanas, com a triagem inicial feita por algoritmos que cruzam vídeos, dados físicos e métricas de desempenho em poucos segundos.

Apesar do avanço da tecnologia, profissionais da área destacam que a inteligência artificial funciona como apoio à decisão, e não como substituta do conhecimento humano acumulado por técnicos e dirigentes. A leitura final sobre contratações e escalações segue nas mãos de comissões técnicas e departamentos de futebol, que usam os dados gerados pelos algoritmos como um argumento a mais dentro de um processo de decisão que continua sendo, em grande parte, humano.

Crescimento de uma nova profissão dentro dos clubes

O avanço da análise de dados no futebol brasileiro também abriu espaço para uma nova geração de profissionais especializados em ciência de dados aplicada ao esporte. Departamentos de analytics, que combinam conhecimentos de estatística, programação e futebol, já fazem parte da rotina de diversas equipes da Série A, atuando em áreas como scouting, fisiologia e monitoramento de atletas ao longo da temporada.

Durante muito tempo, esse tipo de tecnologia esteve associado quase exclusivamente aos grandes clubes europeus, com orçamentos bem superiores aos praticados no Brasil. Hoje, no entanto, equipes brasileiras já utilizam ferramentas semelhantes às adotadas por clubes como Bayern de Munique e Manchester City, ajustadas à realidade orçamentária do futebol nacional, o que reduz parte da distância tecnológica que separava o país das principais ligas do mundo.

O que vem pela frente

A tendência apontada por especialistas do setor é que o uso de inteligência artificial se torne ainda mais central na rotina dos clubes brasileiros nos próximos anos, tanto na formação de jovens talentos quanto na gestão de elencos profissionais. Para o torcedor, o efeito prático deve aparecer indiretamente, em contratações mais assertivas, elencos com menos desfalques por lesão e um scouting cada vez mais capaz de descobrir novos nomes fora dos grandes centros urbanos do futebol nacional.

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