Enquanto uma parcela das mulheres brasileiras realiza mamografias anuais dentro de um planejamento de saúde bem estruturado, outra fatia expressiva da população nunca fez o exame na vida. Essa distância entre o que a ciência recomenda e o que de fato acontece nos consultórios e unidades de saúde do país retrata um problema estrutural, não apenas individual.
Dados do Ministério da Saúde e de sociedades médicas mostram que a cobertura do rastreamento mamográfico no Brasil está longe do ideal preconizado internacionalmente, com variações expressivas entre regiões, faixas de renda e acesso a serviços de saúde. Ex-secretário de Saúde, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues acompanhou de perto essa realidade em sua atuação institucional, e é justamente esse cruzamento entre gestão pública e prática clínica que ajuda a explicar por que a solução exige mais do que boa vontade individual. Veja a seguir onde estão os principais gargalos.
Um exame recomendado, mas nem sempre acessível
A recomendação médica é relativamente simples: mulheres a partir dos 50 anos, sem fatores de risco adicionais, devem realizar mamografia a cada dois anos, segundo o protocolo do Sistema Único de Saúde. Para grupos de maior risco, o acompanhamento costuma começar antes e com periodicidade diferente, sempre orientado por avaliação médica individual.
O desafio não está na recomendação em si, mas na capacidade de transformá-la em prática cotidiana para milhões de mulheres espalhadas por um território de dimensões continentais. Filas de espera, número insuficiente de mamógrafos em determinadas regiões e falta de informação básica sobre a importância do exame se somam e reduzem drasticamente a adesão ao rastreamento.
Infraestrutura e acesso como desafios para o rastreamento mamográfico
Grandes centros urbanos concentram a maior parte dos equipamentos de mamografia do país, enquanto municípios menores e regiões mais afastadas enfrentam escassez de aparelhos e de profissionais especializados na interpretação das imagens. Essa concentração geográfica cria um cenário em que o acesso à prevenção depende, em boa medida, do endereço da paciente.
Conforme apresenta Vinicius Rodrigues, corrigir essa distorção exige investimento coordenado em três frentes:
- Ampliação e manutenção de equipamentos nas regiões carentes;
- Capacitação contínua de profissionais para interpretação de imagens;
- Logística de deslocamento para mulheres que vivem longe dos centros de diagnóstico.
Sem esse investimento articulado, campanhas de conscientização isoladas têm efeito limitado sobre a realidade de quem mora longe de um mamógrafo.

Informação também é barreira de acesso
Falta de acesso físico ao exame é apenas parte do problema. Uma parcela das mulheres que poderiam realizar a mamografia gratuitamente pelo SUS simplesmente desconhece essa possibilidade ou subestima a importância do rastreamento periódico, sobretudo quando não apresenta nenhum sintoma.
Essa lacuna de informação tem consequências diretas: quanto mais tardio o diagnóstico, menores as chances de um tratamento menos invasivo e mais eficaz. Como reforça Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, ampliar o acesso ao exame precisa caminhar junto com a ampliação do entendimento sobre por que ele importa. Nesse quesito, um mamógrafo disponível de nada adianta se a mulher não sabe que deveria procurá-lo.
Reduzir a distância entre recomendação e realidade
Fechar essa lacuna depende de ações simultâneas em várias frentes: expansão da rede de equipamentos, capacitação de profissionais em regiões carentes, campanhas educativas contínuas e políticas públicas que enxerguem a prevenção como investimento, não como gasto. Isoladamente, cada uma dessas medidas tem efeito limitado.
O desafio brasileiro não é convencer especialistas de que o rastreamento salva vidas; isso já é consenso técnico consolidado. O desafio real é fazer com que essa certeza científica chegue à prática de quem mais precisa dela, especialmente nas regiões onde a distância entre o hospital mais próximo e a casa da paciente ainda é medida em horas de viagem.
Além da ampliação da estrutura física, especialistas defendem que o rastreamento precisa ser pensado como uma linha de cuidado contínua, que acompanhe a mulher desde o acesso à informação até a confirmação diagnóstica e o início do tratamento. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues conclui que quando essas etapas funcionam de forma integrada, aumentam as chances de identificar alterações em fases iniciais e reduzir as diferenças nos resultados entre populações de diferentes regiões.



