O Doutor Valdemir Ferreira Santos, juiz de direito, integra uma geração de magistrados que viu crescer a distância entre o que o concurso cobra e o que a vara exige. A aprovação garante conhecimento jurídico, mas não prepara o novo juiz para tudo o que encontrará, sobretudo num Judiciário com mais volume, tecnologia e exposição pública.
O candidato passa anos estudando códigos, súmulas e precedentes. Ao assumir a comarca, descobre que parte decisiva do trabalho depende de capacidades que nenhuma prova objetiva consegue aferir. Cinco delas aparecem com frequência na rotina de quem julga.
Ouvir de verdade em audiência
A primeira habilidade parece simples e não é. Em uma audiência de família, por exemplo, a mãe que pede alteração de guarda raramente começa pelo ponto juridicamente relevante. Ela fala de rotina, de mágoas, de episódios antigos. O juiz precisa acolher o relato sem perder o fio do que precisa ser decidido.
Escutar bem também é técnica processual. Perguntas abertas no momento certo, atenção a contradições e cuidado para não induzir respostas fazem diferença na qualidade da prova colhida. Uma testemunha intimidada fala menos e pior.
Gerir uma unidade como quem gere uma equipe
Uma vara judicial é uma pequena organização. Tem servidores, estagiários, assessores, fluxo de trabalho e metas definidas pelo Conselho Nacional de Justiça. Valdemir Ferreira Santos salienta que o magistrado responde por tudo isso, embora quase nunca tenha recebido formação em gestão.
Na prática, saber distribuir tarefas, padronizar rotinas e identificar gargalos no andamento dos processos pesa tanto quanto a qualidade das decisões. Um acervo que cresce sem controle atrasa direitos, e a lentidão, para quem espera, também é uma forma de injustiça.

Escrever para quem vai ler a decisão
O destinatário da sentença não é apenas o advogado ou o tribunal. É também a parte que muitas vezes lê o texto sem nenhuma formação jurídica. O CNJ tem incentivado o uso de linguagem simples no Judiciário, com frases mais diretas e menos termos herméticos.
Isso não significa abrir mão da precisão técnica. Significa organizar o raciocínio com clareza, explicar o dispositivo da decisão de forma compreensível e evitar latinismos quando existe palavra comum equivalente. Quem entende o motivo de ter perdido tende a aceitar melhor o resultado ou a recorrer de forma mais objetiva.
Dominar as ferramentas digitais
O processo eletrônico, as audiências por videoconferência e o balcão virtual mudaram a forma de trabalhar. O juiz precisa navegar com segurança pelos sistemas, conduzir audiências remotas mantendo a formalidade e a segurança do ato e lidar com provas digitais, como conversas de aplicativos e registros de geolocalização.
Essa competência ganha peso à medida que ferramentas de inteligência artificial começam a ser usadas para triagem e apoio à pesquisa. Nesse contexto, Valdemir Ferreira Santos sustenta que o CNJ tem regulamentado esse uso com ênfase na supervisão humana. Saber o que a ferramenta faz, e sobretudo o que ela não deve fazer, passou a integrar a responsabilidade do magistrado.
Preservar o equilíbrio diante da pressão
A última habilidade é talvez a mais silenciosa. O juiz decide sobre liberdade, patrimônio, guarda de filhos e violência doméstica, muitas vezes no mesmo dia. Convive com metas, cobranças públicas e críticas a decisões que não pode comentar.
Manter serenidade nesse contexto exige cuidado consciente com a própria saúde e limites claros entre vida pessoal e função. Os tribunais passaram a reconhecer o tema, com programas de atenção à saúde de magistrados e servidores. Na trajetória do Doutor Valdemir Ferreira Santos, como na de muitos colegas, essa maturidade se constrói com o tempo de exercício e com a troca de experiências entre pares.
As escolas judiciais vêm incorporando parte dessas competências aos cursos de formação inicial e continuada. O movimento indica uma compreensão mais ampla do ofício: julgar bem depende de conhecer o Direito, mas também de saber ouvir, organizar, comunicar e permanecer equilibrado diante de cada conflito que chega ao fórum.



