Assim como examina Alfredo Moreira Filho, empresário cuja trajetória passou tanto pelo Baixo Sul da Bahia quanto pelo Amazonas, a história do guaraná é um exemplo curioso de como uma cultura pode prosperar longe de sua terra de origem quando encontra condições favoráveis e organização produtiva. Não é de hoje que o fruto se destaca na economia rural, e sua colheita no Baixo Sul baiano movimenta a renda de milhares de pequenos produtores.
O Brasil é o único produtor comercial de guaraná do mundo, e o fruto tem forte presença na indústria de bebidas, cosméticos e produtos farmacêuticos. A maior parte da produção, no entanto, não vem mais da Amazônia. Entenda, a seguir, como essa mudança aconteceu e o que ela revela sobre o agronegócio brasileiro.
Uma planta de origem indígena
O guaraná é nativo da Amazônia, e sua história está ligada ao povo Sateré-Mawé, que vive tradicionalmente na região de Maués, no Amazonas. O nome vem do tupi e o fruto, com casca vermelha que se abre e revela uma semente escura envolta em polpa branca, lembra um olho humano, imagem que aparece nas lendas indígenas sobre sua origem.
Nesse contexto, os povos originários foram os primeiros a domesticar a planta e a desenvolver técnicas de beneficiamento, como o guaraná em bastão, preparado a partir das sementes torradas e moídas. Com o tempo, o fruto ganhou mercado nacional e passou a ser matéria-prima de refrigerantes e suplementos. Como pontua Alfredo Moreira, essa trajetória evidencia o valor do conhecimento tradicional como ponto de partida para cadeias produtivas modernas.
Como a Bahia assumiu a liderança
Há cerca de cinco décadas, mudas de guaraná foram levadas do Amazonas para o sul da Bahia. A planta se adaptou muito bem ao solo e ao clima úmido da região, com temperaturas noturnas mais amenas, e passou a render mais por hectare do que em sua área de origem.
Como resultado, o mapa produtivo se inverteu. Segundo os dados consolidados mais recentes da Conab, a Bahia respondeu por 63,2% de todo o guaraná colhido no país, com produção em torno de 1.555 toneladas. A cultura se concentra no Baixo Sul, onde municípios como Taperoá se destacam e o guaraná se tornou fonte de renda importante para a agricultura familiar.
A trajetória baiana, contudo, não foi linear. No início dos anos 1990, a produção enfrentou uma crise causada pela má qualidade dos grãos, resultado de processos inadequados de beneficiamento, o que afastou grandes compradores. No olhar de Alfredo Moreira Filho, a recuperação que veio depois demonstra como a qualidade do produto pode pesar tanto quanto o volume colhido.

Por que o Amazonas produz menos?
O Amazonas segue como o segundo maior produtor nacional, com destaque para Maués e outros municípios como Itacoatiara e Presidente Figueiredo. Ainda assim, a produtividade é historicamente mais baixa do que na Bahia.
A principal explicação está nas doenças. A antracnose, causada por um fungo, é o maior problema da cultura no Amazonas e limita a expansão dos plantios. Diante desse cenário, a Embrapa Amazônia Ocidental mantém, desde a década de 1970, um programa de melhoramento genético que já lançou cultivares mais produtivas e resistentes, como a BRS Maués e a BRS Saterê. Em linha com o que expõe Alfredo Moreira, investimentos em pesquisa como esse são decisivos para que regiões tradicionais recuperem competitividade.
Do fruto à indústria
Depois da colheita, os frutos passam por etapas de despolpa, lavagem, secagem e torrefação das sementes. A partir disso, o guaraná pode ser comercializado em grão, transformado em pó, em xarope ou em bastão, cada formato com exigências próprias de umidade e qualidade.
A maior parte da produção abastece a indústria de bebidas, mas o fruto também é usado em cosméticos, produtos farmacêuticos e suplementos alimentares, graças ao alto teor de cafeína. Em paralelo, há iniciativas no Amazonas que buscam valorizar o guaraná produzido de forma tradicional, com selos de origem e preços diferenciados. Na ótica de Alfredo Moreira Filho, a convivência entre o modelo baiano, focado em produtividade, e o amazonense, que aposta na identidade de origem, sinaliza que há espaço para diferentes estratégias dentro de uma mesma cadeia.



